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Frederico Mendes granderio@oglobo.com.br

Cinzas e lixo no paraíso do Arpoador

Enquanto pôr do sol é aplaudido, lixo deixado por visitantes merece vaias

Sacos plásticos, copos e garrafas se acumulam sobre a Pedra do Arpoador, procurada por quem quer assistir a um belo pôr do sol Foto: Frederico Mendes / Divulgação
Sacos plásticos, copos e garrafas se acumulam sobre a Pedra do Arpoador, procurada por quem quer assistir a um belo pôr do sol Frederico Mendes / Divulgação
Cariocas, nascidos no Rio ou em qualquer outro lugar do planeta, sabem que o pôr do sol mais bonito é visto do Arpoador no verão. Ali, entre novembro e fevereiro, o sol se esconde dentro do mar. Sentados, como em arquibancada de antigo Fla-Flu, aplaudem o crepúsculo, ato que já virou clichê no folclore da cidade, assim como jogar moedas nas fontes romanas ou prender cadeados nas pontes de Paris. Mas o lixo deixado pelos visitantes merece vaias.
“Vago na lua deserta das pedras do Arpoador”. O verso, que Cazuza cantava em 1988, hoje, onde antes se lia deserta, lê-se lotada. Na geografia privilegiada, o Arpoador nestes mesmos meses também admira a aurora, do outro lado da pedra. Na ditadura militar, em nome da segurança nacional, de noite era proibido o acesso à rocha. O largo virava drive-in perfeito para ver corridas de submarinos de dentro dos Fuscas — naqueles anos de chumbo, pau e pedras, paz e amor, dava para ir de carro até o final da rua. Um namoródromo sob a proteção dos recrutas do Forte que patrulhavam o local, isto é, verdadeiro sexo seguro. Em meados dos anos 1980, o trecho da rua foi fechado, e o acesso agora é restrito aos moradores.
Hoje, o nascer do sol ou da lua é point de encontro de todas as tribos. Nas madrugadas, centenas de jovens festejam nas pedras esperando o dia e deixam garrafas, latas, plásticos e guimbas, apesar das 18 caçambas de lixo nas pedras. Tudo isso sob o olhar de Joel de Oliveira, que há 21 anos recolhe em ritual matinal o lixo nos jardins que ele teima em cuidar. Ele já plantou 280 árvores e sofre cada vez que suas crias são pisadas pelo povo.
— Aplaudem o sol, mas não recolhem o seu lixo e ainda picham as pedras. Digo: “mija ali, onde o mar lava”. Os caminhões-pipa não podem subir para lavar detritos corporais, e o cheiro assusta. Só a chuva lava a urina. É que nem enxugar gelo. Limpo hoje, amanhã está sujo de novo — explica.
É o jeitinho brasileiro para o mito de Sísifo, personagem da mitologia grega, condenado pelos deuses a empurrar pesada pedra até o topo de um morro e logo vê-la desabar morro abaixo e assim recomeçar a tarefa até a eternidade e além.
O que impressiona é que, depois de tantos anos de campanhas pró-ecologia nas escolas e na mídia, ainda joguem lixo no chão para que outros catem.
*Frederico Mendes é fotógrafo e prepara um livro sobre o Arpoador com texto de Gilberto Braga


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