LAGOA


 

Esgoto volta a poluir águas da Lagoa.

RIO — Um dos mais belos cartões-postais da cidade e local escolhido para as provas de remo e canoagem durante as Olimpíadas de 2016, a Lagoa Rodrigo de Freitas voltou a sofrer com o despejo de esgoto e já tem pontos, como na altura de Ipanema, impróprios até para atividades esportivas, como mostra monitoramento feito pela Secretaria municipal de Meio Ambiente. A poluição teria sido agravada por um vazamento de esgoto. Consequentemente, dejetos foram parar na galeria de águas pluviais que desemboca na Lagoa.
Integrantes da Associação de Moradores do Jardim Botânico (AMA-JB) entraram com uma representação no Ministério Público estadual denunciado a poluição. Utilizando um barco cedido por pescadores, no dia 22 de julho, o presidente da associação, Heitor Wegmann Jr., disse ter visto grande quantidade de esgoto saindo das tubulações de onde deveria sair apenas água. Na quarta-feira, pela manhã, uma água cinzenta e com odor forte continuava sendo despejada na lagoa.
A Cedae informou, por meio de nota, que no ponto da Rua Joana Angélica, em Ipanema, existe rebaixamento de lençol de água limpa autorizado para a realização das obras da Linha 4 do metrô. Segundo a nota, uma equipe da Cedae já teria identificado um vazamento na rede de esgoto e que estaria fazendo o conserto, previsto para ser concluído ainda na quarta-feira.
RIO-ÁGUAS IDENTIFICOU AMÔNIA EM AMOSTRAS
A Fundação Rio-Águas informou que realizou vistoria nesta quarta-feira do espelho d’água da Lagoa e identificou a presença de amônia (indicativo de presença de esgoto) nos pontos 20 e 22 — ambos na altura da Rua Joana Angélica — , de acordo com teste feito com o reagente de Nessler. Conforme procedimento nestes casos, o órgão informou o fato à Secretaria municipal de Meio Ambiente, à Cedae e também ao Instituto estadual do Ambiente (Inea).
A Secretaria municipal de Meio Ambiente informou que monitora a qualidade da água em três trechos da lagoa, conforme a divisão disposta no Decreto Municipal 18.415/2000. Os pontos 20 e 22 estão localizados no trecho 3, que se encontra “impróprio para contato secundário” desde a quinta-feira da semana passada. Essa designação refere-se a atividades em que o contato com a água é esporádico ou acidental e a possibilidade de ingerir água é pequena, como na pesca e na navegação (tais como iatismo e outros esportes aquáticos).
Outros pontos que fazem parte da denúncia ficam na Rua Redentor e no Jardim de Alah. Segundo a Cedae, em medições realizadas ao longo dos últimos dias, foi identificado o despejo de águas pluviais em galerias de águas pluviais. Ou seja, não se trata de esgoto. Ainda segundo a nota, nova vistoria feita na quarta-feira constatou que os pontos estão secos, não havendo sequer lançamento de águas pluviais. Nestes, a Secretaria de Meio Ambiente não considerou o contato impróprio.
Pescadores que trabalham na Lagoa, no entanto, desmentem o que foi dito na nota. Um deles, Alexandre de Oliveira, diz que vê a sua rede ficar vazia a cada noite de trabalho. Segundo os pescadores, nos dois pontos citados pela Cedae o esgoto tem vazado constantemente.
— Quando passo de barco vejo uma grande quantidade de detritos no canal do Jardim de Alah com um forte mau cheiro. A situação começou a piorar após fevereiro deste ano. Em janeiro, eu conseguia tirar aproximadamente 200 quilos de pescado por noite. Houve uma redução muito grande, que ficou mais grave em junho. Agora, não passa dos dez quilos de peixe — reclamou Alexandre.
O presidente da AMA-JB, Heitor Wegmann Jr., que percorreu os pontos novamente na quarta-feira pela manhã, disse que o ponto de saída 27 continua lançando muito esgoto.
— Entramos no canal do Jardim de Alah e no ponto 27, que fica ao lado da comporta, estava saindo muito esgoto. Este ponto fica ao lado da praia de Ipanema e Leblon. Tinham fechado a comporta, mas horas depois a abriram novamente — disse Heitor.
Carlos Antônio Ribeiro, que costuma pescar na altura do Jardim de Alah para consumo próprio, também denunciou o despejo de esgoto. Na quarta-feira, pela manhã, ele conseguiu pegar algumas poucas e pequenas tainhas na rede que jogou:
— Nos últimos dias, o cheiro tem ficado insuportável e uma água cinzenta está sendo despejada no canal. Isso está afugentando os peixes.
Mesmo após investimentos de milhões de reais em saneamento nas áreas de seu entorno, a Lagoa sofre constantemente com despejo irregular de esgoto. A galeria de cintura — uma tubulação inaugurada em 2001 que capta o esgoto, impedindo-o de chegar ao espelho d’água — já foi reformada algumas vezes, e tem se mostrado insuficiente para resolver todos os problemas. A situação, de modo geral, melhorou após o Termo de Ajustamento de Conduta (TAC), assinado em 2000 e repactuado em 2004 entre o Ministério Público e órgãos da prefeitura e do estado, que desencadeou o Projeto Lagoa Limpa, iniciado em 2008 e encerrado em 2012.
EIKE INVESTIU R$ 23 MILHÕES
Com o projeto, a Cedae recuperou troncos coletores e elevatórias, e o grupo EBX, de Eike Batista, investiu R$ 23 milhões em iniciativas como a criação do Centro de Controle Operacional de Esgoto, a retirada de 28 mil metros cúbicos de sedimentos e a dragagem de 97.300 metros cúbicos de detritos. A empresa atuou na Lagoa de setembro de 2008 a dezembro de 2012. Mas, em junho do ano passado, a reportagem do GLOBO mostrou que a Comissão de Saneamento da Alerj havia mapeado despejo clandestino em 17 das 95 galerias de águas pluviais que desembocam na Lagoa.
O Plano de Gestão da Sustentabilidade dos Jogos Rio 2016, divulgado em março do ano passado, registrou avanço na qualidade da água: “Resultados de recuperação ambiental já foram constatados, através da queda do indicador de coliformes fecais por mililitro de água (nmp/ml), que saiu de aproximadamente 16.000npm/ml em 2006 para 1.300nmp/ml em 2008 e para 400nmp/ml em 2009″.
PALAVRA DE ESPECIALISTA
A VISÃO DE: Franscisco Esteves, biólogo especialista em lagoas e pesquisador da UFRJ
‘Não é essa maravilha que alguns gestores descrevem’
“Algumas ações foram realizadas nos últimos anos com o objetivo de melhorar as condições da Lagoa Rodrigo de Freiras. Contudo, o estágio de degradação era muito grande; são anos e mais anos de poluição. As ações não foram suficientes. Na Lagoa ainda persiste uma quantidade muito grande de matéria orgânica de origem humana. Mesmo que todo o esgoto parasse de chegar ao corpo hídrico, ainda existe muito material depositado no fundo que consome oxigênio.
“Qualquer vento, qualquer alteração meteorológica, qualquer possibilidade de movimentação da coluna d’água implica mortandade de peixes. É como uma pessoa com obesidade mórbida e que para de comer feijoada. Não basta. Ela tem que fazer uma lipoaspiração, tirar o excesso de gordura. O mesmo precisa acontecer na lagoa. Caminho frequentemente em frente à sede náutica do Vasco e observo o crescimento de uma vegetação típica de locais onde há despejo de matéria orgânica.
“A Lagoa Rodrigo de Freitas ainda está longe de ser recuperada. Não é, de forma alguma, essa maravilha que muitos gestores públicos descrevem. A Lagoa está a caminho da recuperação, mas é um processo ainda longo. Os benefícios sociais e econômicos de sua despoluição não têm preço. Trata-se de um patrimônio da humanidade.”

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