METRÔ


Notas do subterrâneo: a cidade que se movimenta sob Ipanema

A vida dos quase 9 mil trabalhadores que se revezam noite e dia para construir a Linha 4 do metrô

O DIA
Rio - Homens trabalhando, alertam placas e faixas. Uma massa anônima de mais de 8.600 funcionários desenha sob os pés dos cariocas, como um disciplinado exército de formigas, os 16 quilômetros de trilhos da Linha 4 do Metrô, que vai transportar 300 mil pessoas por dia entre Ipanema e Barra. Essa população executa debaixo da terra a maior obra urbana em curso no mundo, prevista para ser concluída no primeiro semestre de 2016.
Homens trabalham 20 metros abaixo da terra onde era a Praça da Paz
Foto:  Alessandro Costa / Agência O Dia
“Trabalhei na reforma do Maracanã, que já foi impressionante. Mas a obra do metrô é ainda maior”, diz, deslumbrado, o operador de máquina Charlison da Silva, pernambucano de 32 anos.
Nos canteiros, onde é sempre noite, parecem todos iguais. O uniforme é pesado, com calça e camisa de mangas compridas, coberto pelo obrigatório aparato de capacete, óculos plásticos, coletes, botas, fones e máscaras.
A 20 metros de profundidade, o equivalente a um prédio de sete andares, 350 pessoas trabalham na obra da Estação Nossa Senhora da Paz. Por ora, nada ali sinaliza o futuro de trens, trilhos e plataformas. O cenário é semelhante ao de uma mina, com atmosfera sufocante, apesar dos dutos de ventilação. Os altos decibéis de tratores, escavadeiras, britadeiras e toda sorte de ferramentas são a música-ambiente.
Próximo a um altar de Nossa Senhora na entrada de um dos túneis, Charlison conta que o trabalho pesado convive em harmonia com brechas para a diversão nas profundezas. “O pessoal traz jogos de dama e baralho. Temos até uma salinha com TV e ar-condicionado”, revela o trabalhador, que ‘pega’ de 21h às 5h, e volta todo dia para casa, em Jacarepaguá.
Há também os que moram longe e optam pelo alojamento, que funciona no terreno do 23º BPM, no Leblon. Sem a armadura de operários, eles se misturam à agitação noturna do bairro nobre da Zona Sul e até batem ponto em botecos já contaminados pelos preços surreais do Rio — um sanduíche de carne assada custa R$ 9.
Dono de um bar na Rua Bartolomeu Mitre, Roberto Nascimento diz que costuma receber grupos de seis ou sete “peões” da Linha 4. “Eles vêm fazer um lanche. Alguns são até evangélicos.” Outros, porém, não resistem a uma cervejinha após o batente e podem ser vistos com os cotovelos sobre o balcão de botecos. “Tem gente que dá uma escapada pra beber, né?”, diz um operário da Linha 4, pedindo anonimato.
O ‘tatu’ que não larga o Rio
À Nossa Senhora da Paz, chega até o fim de junho a máquina perfuradora cujo nome pomposo — Tunnel Boring Machine — motivou a adoção de um apelido de sotaque “carioquês”: Tatuzão.
Um português coordena o grupo de homens que dirige a máquina de 2.700 toneladas e filiação alemã. “Uma das vantagens é trabalhar com pessoas qualificadas, de lugares diferentes, como Brasil, Alemanha e México”, diz Paulo Jorge Nunes, de 50 anos. Ao seu redor, se movem 180 pessoas, que se revezam em três turnos, 24 horas por dia. Ele já comandou outros ‘Tatuzões’ (este foi feito sob medida para o Rio) em diversos países, como Espanha, Suíça e México. Para o Rio, trouxe a família, e gostou tanto da cidade que já pensa em pedir a cidadania brasileira para continuar aqui após a obra.
Fugindo do trânsito
Os anéis de concreto que formam os túneis da Linha 4 são fabricados na Leopoldina por 200 trabalhadores. Um deles é o soldador Alessandro de Vasconcelos, de 45 anos. Maratonista com duas participações na São Silvestre, ele volta para casa correndo. Literalmente. “Vou até Colégio, onde moro. São uns 20 km. Outro dia um motorista falou pra eu ter cuidado pra não ser multado por um pardal eletrônico”, recorda.
O borracheiro Valdecir Pereira, 41 anos, nem volta para casa de segunda a sábado. Cansado das três horas de trânsito até Itaboraí, na Região Metropolitana, ele passou a dormir no alojamento da central de concreto da obra, no Leblon. “Não me desgasto mais com esse retorno. E minha mãe, que mora comigo, não se preocupa mais”.
A reportagem é de Paulo Maurício Costa

Um comentário:

Anônimo disse...

Pois e ... Tanta gente e nao tem uma ninguém que possa dar uma informação verdadeira sobre o Tatuzao que esta
Rachando as paredes dos edifícios da r. barao da Torre
e tambem afundando as calcadas , antes mesmo de passar perto . Pois os moradores desse trecho quando indagam ou reclamam a resposta e sempre a mesma
Esta parado no numero 100 . Mas se trabalha todas as madrugadas por que nao sai do lugar ? ? ?
Valeria a pena uma reportagem no local . Basta passar na rua e constatar o que escrevi aqui. Agora sao quase 2 h. Madrugada e o Tatuzao esta fazendo tudo tremer....parece que estamos sofrendo um terremoto.