domingo, 6 de outubro de 2013

CIDADE DAS OLIMPÍADAS

Mais de 30 chafarizes e dez bustos desapareceram das ruas do Rio

  • Há 20 anos, a arquiteta Vera Dias, gerente de Monumentos e Chafarizes da Secretaria de Conservação e Serviços Públicos, tenta calcular o número exato de obras sumidas

LUDMILLA DE LIMA(


O stábile de Alexander Calder no Parque da Catacumba: essa escultura e um móbile do artista, autor da peça mais cara da ArtRio este ano, estão desaparecidos desde os anos 80
Foto: Foto: Arquivo/Michel Filho
O stábile de Alexander Calder no Parque da Catacumba: essa escultura e um móbile do artista, autor da peça mais cara da ArtRio este ano, estão desaparecidos desde os anos 80 Foto: Arquivo/Michel Filho
Drummond perdeu os óculos várias vezes, Noel Rosa teve o copo de chope roubado e o Manequinho já ficou, digamos, sem a sua “torneirinha”. Só o Chafariz das Saracuras, nos últimos dez anos, foi vítima de ladrões mais de seis vezes: em agosto, as quatro saracuras e uma das quatro tartarugas em bronze foram furtadas da fonte de Mestre Valentim, em Ipanema. Mas, pior do que todo esse vandalismo contra monumentos, está o desaparecimento total de obras que ficavam expostas em ruas do Rio. Roubadas ou destruídas — sendo que algumas sumiram do mapa de modo misterioso, sem deixar rastro —, elas vão aos poucos se apagando da memória dos cariocas. Um caso clássico é o das obras do artista americano Alexander Calder instaladas, inicialmente, no Parque do Flamengo, e, depois, no Parque da Catacumba: tomadas pela ferrugem, foram levadas para um depósito da prefeitura, de onde desapareceram nos anos 80.
A prefeitura, dona do móbile “Rio” e de um stábile do artista, até hoje é questionada sobre o paradeiro das criações pela Fundação Calder, com sede em Nova York. Para se ter uma ideia do valor do móbile (adquirido em 1961 por um milhão e duzentas e cinquenta mil cruzeiros) e do stábile (este doado pelo artista), Calder foi o autor da peça mais cara da ArtRio deste ano, arrematada por R$ 24 milhões.
A arquiteta Vera Dias, gerente de Monumentos e Chafarizes da Secretaria de Conservação e Serviços Públicos, há 20 anos tenta calcular o número de obras desaparecidas. Ela já se conformou com a impossibilidade de fechar essa conta, mas, até o momento, chegou a mais de 30 chafarizes e dez bustos. Entre estes últimos, está o da romancista Júlia Lopes de Almeida, o primeiro busto de uma mulher, de 1935, do Rio. O monumento ficava no Passeio Público, mas foi furtado em 2004, junto com uma representação de Mestre Valentim. Enquanto há na cidade 217 esculturas de figuras masculinas, apenas 13 mulheres receberam a mesma distinção. Desse pequeno total, três bustos femininos ninguém sabe onde estão.
— Desde 93 ando pelas ruas procurando monumentos. Só agora, com o acesso a um número enorme de registros fotográficos, temos uma ideia melhor do que existiu e desapareceu. Mas o número total é uma incógnita — diz Vera, que não cansa de lamentar o vazio deixado por uma escultura que adornava a primeira fonte em ferro fundido do país: a Mulher da Luz, do Chafariz da Praça das Nações.
Da noite para o dia, em outubro de 2010, a peça de 250 quilos foi levada do topo do chafariz neoclássico, esculpido para a Exposição Nacional de 1908. Como não há o molde, não foi possível produzir uma réplica. Os monumentos são visados pelo material e por colecionadores. No caso das peças de Calder, com a falta de cuidado, uma das hipóteses é que viraram sucata.
O colecionador Fernando da França Leite cita monumentos que só podem ser lembrados por fotos e desenhos antigos. No Império e no começo da República brasões costumavam decorar as ruas:
— Os sumiços ocorriam muito quando o sistema de governo mudava. Esses medalhões tinham arte e devem estar em algum lugar — desconfia.
Um brasão do Campo de Santana está no depósito municipal, que preserva outras peças originais para o caso da necessidade de reprodução de réplicas de cópias já vistas nas ruas. Outros recursos para salvar as obras é a instalação de câmeras, como feito com o Chafariz das Saracuras, e a divulgação dos 1.100 monumentos do Rio pelo site riomonumentos.com.

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