domingo, 19 de maio de 2013

IMBECILIDADE


Casos de violência e ameaças mancham a prática do surfe

  • Em frente às ondas onde os surfistas relatam agressões há uma barraca de fiscalização da prefeitura, com guardas municipais de plantão. E ainda um ponto de observação de salva-vidas do Corpo de Bombeiros

ANTÔNIO WERNECK (


Surfistas no Arpoador: disputa por exclusividade nas ondas do lugar não raro descamba para a violência
Foto: Pablo Jacob / O Globo
Surfistas no Arpoador: disputa por exclusividade nas ondas do lugar não raro descamba para a violência Pablo Jacob / O Globo
RIO — Na semana em que o Rio sedia o maior evento de surfe mundial, um caso clássico de localismo sacudiu os bastidores do campeonato: os organizadores do WCT, competição que reúne os 34 melhores surfistas do planeta, precisaram negociar com os praticantes do esporte no Arpoador, em Ipanema, para conseguir instalar na praia um palco para servir de estrutura alternativa da competição que acontece oficialmente na Barra da Tijuca. Durante dois dias, a montagem da estrutura ficou suspensa. O episódio, que acabou superado em uma reunião tensa a poucos dias da primeira bateria do WCT, serviu para que os profissionais do esporte voltassem a discutir os limites do localismo na cidade.
— O localismo existe em qualquer lugar de boas ondas do mundo. Não é um problema só do Rio — afirmou o surfista Xadi Fontes, diretor-executivo do WCT no Brasil e que ficou à frente das negociações com os “locais” de Ipanema.
O localismo é um neologismo. Na prática é uma espécie de bairrismo, usada entre os praticantes do surfe para definir um movimento de um determinado grupo de surfistas que tenta impor um domínio sobre as ondas a serem surfadas em um certo local. No litoral do Rio o exemplo mais radical fica no Quebra-Mar, um trecho pequeno do mar localizado no canto da praia da Barra da Tijuca, na altura do Jardim Oceânico, onde surfistas de fora são terminantemente proibidos de entrar na água sob pena de sofrerem até agressões físicas.
‘Marginais e maus policiais’
— O Quebra-Mar desde o inicio dos anos 90 foi tomado por marginais e maus policiais. Inacreditável que isso perdure até hoje e as autoridades não tenham acabado com essa bandidagem que privatizou um espaço público, uma praia que eu sempre frequentei desde pequeno e que agora não posso mais — afirmou Fred D´Orey, empresário, ex-surfista profissional e dono da marca Totem desde 1994.
O Quebra-Mar é considerado um dos melhores points de surfe do litoral do Rio. Sua esquerda — ondas que quebram perfeitas para o lado esquerdo do surfista — são famosas no mundo inteiro. Assim como a fama de expulsar os forasteiros com violência. Tudo sob a proteção de um grupo de policiais civis e militares com perfil de milícia. Como no Arpoador, os praticantes do esporte consideram o Quebra-Mar um “point break”: ondas que quebram únicas e normalmente limitam a quantidade de surfistas.
Fama do lugar é antiga
Um dos mais conhecidos fotógrafos especializado em surfe do país, Rick Werneck, lembrou que a fama do Quebra-Mar é antiga. Rick lembrou que nos anos 1990, esta fama ganhou contornos mais graves:
— No início, pelo que sei, foi um movimento para organizar a disputa pelos melhores picos nas ondas, que sempre foram boas ali. Como é um ponto excelente de surfe, ficava lotado, gerando muita confusão na água. Além disso, havia muito consumo de drogas na areia e isso passou a incomodar. A ideia era nobre, mas descambou. É um absurdo as pessoas serem ameaçadas, impedidas no direito de ir e vir no mar — disse Rick.
Um dos policiais citados pelos frequentadores da praia como uma espécie de xerife do Quebra-Mar é um inspetor aposentado da Polícia Civil do Rio. Com um detalhe: em frente às ondas onde os surfistas relatam agressões e ameaças há uma barraca de fiscalização da Prefeitura do Rio, com guardas municipais de plantão. E ainda um ponto de observação de salva-vidas do Corpo de Bombeiros. Surfistas afirmam que os vigilantes fazem vista grossa.
O surfista Pedro Falcão, diretor-executivo da Associação Brasileira de Surfe Profissional, acredita que o Rio tenha perto de 500 mil praticantes de surfe e apenas cerca de 60 que podem ser chamados de surfistas profissionais.
— O localismo existe em todas as praias do Rio, prática abraçada por surfistas que se acham donos da área — afirmou Falcão.
Polícia abiru inquérito
Reza a lenda que para ser aceito e desfrutar das ondas do Quebra-Mar, o iniciante no esporte precisa mostrar qualidade sobre a prancha e cumprir um ritual: pular da ponte da Joatinga (um salto perigoso de uma altura de 12 metros), raspar a cabeça e passar por um corredor polonês (ser agredido pelos mais velhos do local).
O delegado Fábio da Costa Ferreira, titular da 16a DP (Barra da Tijuca), determinou a instauração de um inquérito policial para investigar a existência de uma quadrilha formada por policiais que dariam cobertura a locais. Ferreira disse que os registros de ocorrências serão rastreados para identificar supostos casos de violência no local, envolvendo outros frequentadores.
Em nota, o Grupamento Especial de Praia que atua no local não tem relato de problemas do tipo. A atuação da Guarda Municipal, neste caso, é de encaminhar casos de flagrante (brigas, vandalismo etc) para a autoridade policial.
Rico de Souza, uma lenda do surfe brasileiro, observa:
— Quando eu comecei a surfar, não havia muitos surfistas. Hoje é problema sério, e estressante.

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