NAS TELAS


Vendedores ambulantes da Praia de Ipanema nas telas

  • Do ‘Hare Burguer’ ao mate de galão, o diretor paulistano Joaquim de Castro produz curta-metragem documental sobre a atividade
CATHARINA WREDE (·

De sol a sol. “Bom dia, Ipanema” reúne depoimentos de 15 profissionais da praia, como Marcelo, do mate de galão
Foto: Divulgação
De sol a sol. “Bom dia, Ipanema” reúne depoimentos de 15 profissionais da praia, como Marcelo, do mate de galão Divulgação
RIO — Os vendedores ambulantes labutam de sol a sol na praia de Ipanema desde que Leila Diniz causou furor ao aparecer grávida de biquíni em pleno Posto 9, nos anos 1960, mas o mérito de ter registrado a peregrinação escaldante dos profissionais da faixa de areia — e suas sofisticadas estratégias de venda — é de um paulistano. Mais precisamente de Joaquim de Castro. Sócio da produtora Na Laje Filmes, o diretor documentou, no ainda inédito curta-metragem “Bom dia, Ipanema”, a história e a rotina de 15 trabalhadores que ganham o pão onde a maioria dos cariocas se alimenta de Biscoito Globo.
— O que me chamou a atenção, fora a extroversão dos vendedores, foram duas características interessantes: o marketing próprio, a forma que eles encontraram de se destacar naquela praia tão concorrida; e o caráter empreendedor — explica Joaquim, 31 anos de praia no currículo. — Acho muito fácil sair de casa e pensar: vou vender açaí, mate, mas eles são verdadeiros guerreiros que vivem debaixo do sol vendendo alegria. Queria ver, se os personagens da Disney estivessem sob aquele sol, se estariam acenando o bracinho.
Frequentador assíduo do Posto 9 e arredores de 2006 a 2012 — período em que cursou a Escola de Cinema Darcy Ribeiro concomitantemente com a faculdade de psicologia na PUC-Rio —, Joaquim se viu desestimulado com a breve carreira de ator que pensou seguir quando veio morar no Rio. Foi refletindo num fim de tarde em Ipanema, mate de galão em punho, que o diretor decidiu produzir o filme e as entrevistas.
Não foi fácil. Por incrível que pareça, o curta de 15 minutos precisou de um ano para ser feito. Acostumado com a velocidade frenética da Av. Paulista, Joaquim precisou se curvar ao raciocínio lógico carioca: vendedor ambulante só sai de casa para trabalhar quando dá praia. E só dá praia quando faz sol.
— O filme foi rodado em doses homeopáticas, não adiantava forçar a barra. Esse foi o maior desafio. Mas todos eles foram muito disponíveis — sublinha.
Por “todos eles” entendem-se 15 profissionais dos mais sortidos quitutes praianos. Desde o rapaz do intergaláctico “Hare Burguer”, Rafael (“que não tem nada de alucinado ou maluquete, é um garoto super esperto”, garante Joaquim) até o modesto Mário, criador da “melhor mousse do Rio de Janeiro”, segundo o próprio slogan, passando pelo Marcelo, do onipresente mate de galão.
Com lançamento previsto para meados de abril, “Bom dia, Ipanema” — que ainda está sendo finalizado — vai percorrer o circuito de festivais brasileiros e internacionais, como garante o diretor. É por isso que, por enquanto, YouTube nem pensar.
— Alguns festivais exigem que o filme não vá para a internet antes de concorrer.
O documentário é o segundo filme de Joaquim. O paulistano estreou na direção em “Cuidado ao atravessar a rua” (2009), curta de ficção cuja história gira em torno de um jovem que descobre que seu pai biológico — que ele nunca conheceu — vai tocar como DJ em uma festa na praia (ela de novo).
De volta a São Paulo por conta da produtora e da pós-graduação em psicologia na USP com ênfase em sexualidade — tema em que Joaquim se diz muito interessado —, ele ainda não sabe quando retoma seu lugar ao sol em Ipanema.
— Mas é claro que quero voltar. Louco é quem diz que não gostaria de morar no Rio.




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